segunda-feira, 11 de agosto de 2008

''Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarcado.''




Dentro de nós – pronto a revelar-se – vive a revolta e o ressentimento. Eles são a resposta à dor, aos inimigos, à crueldade da vida, às afrontas, à morte, às desilusões.E isso pode cegar-nos. A revolta e a descrença não são bons companheiros, e conduzem-nos à ingratidão. Um coração cheio de fel, que não esquece as ofensas e as injustiças, é incapaz de fruir as alegrias que a vida contém, ou de reconhecer a mão amiga, um sorriso, um acto de justiça. A ingratidão – associada à revolta e descrença - é um poço sem fundo, que envenena definitivamente a vida. É uma forma de loucura, nas palavras de Epicuro: «A vida dos loucos é vazia de gratidão, e cheia de ansiedade».E é, por outro lado, uma expressão de falta de amor: é-se ingrato e revoltado, porque não amamos suficientemente os outros, a vida, projectos; ou porque não temos ou não valorizamos em grau suficiente as amizades ou o amor dos outros…

"Há que sarar as nossas feridas por via de uma atitude serena face ao passado e pelo reconhecimento de que é impossível desfazer o que está feito."

Infeliz será sempre quem assim se vê a si mesmo.Tudo depende de como pensamos. (…) A infelicidade é directamente proporcional ao nosso convencimento de tal.Que interessa a tua vida e o teu lugar no mundo, se à partida o detestas?Porque coleccionas sofrimentos passados e te sentes infeliz hoje porque ontem o foste? (…) Quando os problemas acabam, manda a vida que fiquemos satisfeitos.Os animais selvagens fogem aos perigos do momento, para logo, uma vez acabados, não mais se preocupam com eles. Nós, ao contrário, somos atormentados pelo que passou e pelo que está para vir.As nossas faculdades ferem-nos, já que a memória das coisas nos traz a agonia do medo, e a nossa capacidade de antecipar traz desgraças de outra forma inexistentes. Ninguém é incapaz de confinar a sua infelicidade ao presente.




...Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar.Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar...




Clarice Lispector








Um comentário:

Paulinha Suemi disse...

Solzita!! teu blog ta fikando TOP!!! rs
aprendi !rs
tá lindo amore... bjus